“Photoshop Social”

“É o governo trampando, Photoshop social
Bandeirantes, Anhanguera, Raposo, Castelo
São heróis ou algoz? Vai ver o que eles fizeram
Botar o nome desses cara nas estrada é cruel
É o mesmo que Rodovia Hitler em Israel”

Esse é um trecho da música “Eu só peço a Deus” do Rapper Inquérito onde ele faz uma reflexão sobre as relações raciais entre os colonizadores e povos atingidos pelo genocídio provocado por eles. Um trecho que é uma ótima reflexão sobre a notícia de que o Prefeito do Rio de Janeiro trocou o nome de 42 ruas na Vila do João. Sem prévio aviso, ou conversa com os moradores locais.

Mudar de endereço repentinamente é uma dinâmica comum para o povo negro. A colonização brasileira foi feita desta forma. Primeiro foram forçados a mudar de continente, depois mudavam de fazenda uma vez que seus corpos eram negociáveis, fogem e erguem quilombos vem as favelas, remoções e assim mudando de endereço o povo negro luta por um pedaço de chão que possa chamar de seu.

Inquérito eu só peço a Deus

Vídeo clip da música “Eu só peço a Deus” do Inquérito. São heróis ou algoz? Assista clicando aqui.

No meio de tanta mudança as favelas que se erguem na cidade e constróem uma geografia muito própria que mapeia de maneira afetiva as ruas e becos. Onde eu moro, por exemplo, existe um beco chamado “Beco da Foda”, e não interessa a maneira que a prefeitura queira chamar aquele lugar, alí é o Beco da Foda e ponto! Outras ruas recebem nome de personalidades que construíram uma história com o espaço. No morro do Caracol onde minha família morava na Penha, tem um lugar chamado “Beco da Maria Gorda”. Quem é ela? O Governo não faz a menor ideia, mas está lá imortalizada, mesmo depois da remoção para o favela bairro na década de 90, Maria Gorda resistiu. A dois anos atrás, na região conhecida como Areal no Complexo do Alemão, tivemos a iniciativa de fazer uma cerimônia para dar nome a um beco em que lamentavelmente uma criança havia sido assassinada por um policial do Choque, e assim nasceu o Beco Eduardo de Jesus, para lembrarmos sempre que alí, no beco é o lugar de criança brincar.

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Beco Eduardo de Jesus. Antes do menino de 10 anos ser morto neste lugar, o espaço era onde ele brincava, e assim deve ser lembrado.

Cabe aqui uma rápida definição: a palavra afeto vem do latim affectus,us ‘estado psíquico ou moral (bom ou mau), afeição. Ou seja, não necessariamente tem relação com sentimentos bons. Dessa forma a realidade de conflitos armados também é lembrado nesse mapa afetivo criado pela favela. É como surge no Complexo do Alemão por exemplo, a Zona do Medo ou o Inferno Verde. Nomes surgidos dentro de uma relação com o lugar onde se vive e com as memórias que envolvem o mesmo espaço dividido por gerações. E daí vem a ideia de memória social, em bem resumidas palavras seria a memória coletiva sobre alguns imaginários. Num futuro de paz, o Inferno Verde pode receber outro nome? Pode, mas se não receber as novas gerações terão algum imaginário de que alí algo grave aconteceu nestes tempos que vivemos. Mas Maria Gorda também será lembrada e o beco da foda…bem a galera vai saber o que rolava lá.
Por outro lado a geografia da cidade não segue laços afetivos, seguem laços de poder. E nisso retomo a letra do Inquérito. A imposição de nomes de ruas e becos geralmente  não vem apenas com o objetivo de homenagear os “heróis ou algoz”, mas com a intenção de legitimar a história oficial escolhida pelas elites.

No caso das ruas da Vila do João por exemplo, que agora recebem nomes como Travessa do amor ou da Adoração aparece uma forma nova para a velha prática de impor relações com o espaço que não são naturais para a população que alí vive. “Photoshop social” diz a letra do Inquérito. Uma mudança de nome, mas não de realidade. E do dia pra noite, o povo negro favelado trocou de endereço mais uma vez. Agora estão nas mesmas casas, na mesma realidade de conflitos e direitos básicos sendo violados. Sem direito a escrever sua própria história com caneta de afeto que só quem vive nos espaços populares sabe o que significa.

Nem Eduardo Paes, o prefeito que mais removeu na história da cidade conseguiu o feito de mudar de endereço moradores de 42 ruas de maneira tão rápida. Espertinho esse Bispo.

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