Nota sobre matéria da Globo sobre Rocinha

Na última semana após intenso confronto na favela da Rocinha, o jornal O Globo fez algumas matérias em que mostraram a total falta de empatia para com a população favelada que é a mais atingida nestas situações. Pensando nisso, nós do  Coletivo Papo Reto decidimos dar nossa contribuição ao veículo e corrigir os erros de redação da matéria e tirar ponto a cada erro identificado.

A matéria analisada está aqui.

Moradores da Gávea e de São Conrado mantêm atividades, mas vivem clima de apreensão enquanto jornal carioca não se importa com moradores da Rocinha. (-0,5)

Veículo com turistas sobe Estrada da Gávea em direção à Rocinha

xpolicia-gavea.jpg.pagespeed.ic.0Joj_PULLcPolicial militar patrulha Estrada da Gávea. Ao fundo, estudante entra na Escola Americana continua sua vida tranquilamente enquanto estudantes da Rocinha perderam aula e provas (-0,5)Agência O Globo / Gabriel de Paiva

POR RENAN RODRIGUES Corrigido por Thainã de Medeiros

18/09/2017 10:49 / atualizado 18/09/2017 12:02

RIO – Moradores da Gávea e de São Conrado, vizinhos à Favela da Rocinha, onde traficantes entraram em guerra – realizam as atividades normalmente na manhã desta segunda-feira, (o mesmo não pode ser dito para moradores da Rocinha que vivem dias tensos sem poder ir trabalhar, estudar ou abrir seu comércio) (-0,5) apesar do clima de apreensão decorrente de confrontos e de uma operação policial na favela da Rocinha. Comércio, shopping e escolas da região funcionam e O GLOBO flagrou até um veículo com quatro turistas  suspeitos (-0,5) subindo a Estrada da Gávea em direção à Rocinha, cujos acessos são monitorados por policiais.

Um dos PMs, sem se identificar, criticou o funcionamento das atividades turísticas na região pelo risco que isso representa aos visitantes.

— É uma irresponsabilidade. O Bope está na favela. Daqui a pouco começa um tiroteio e pronto. A matéria não se importou em entrevistar moradores da Rocinha. (-1,0)

A escola Americana, localizada na Estrada da Gávea 132, funcionou normalmente na manhã desta segunda-feira, segundo funcionários da instituição. Outras instituições de ensino seguiram o movimento, como a Escola Parque e o Colégio Teresiano. (se a vida segue tranquilamente nestes lugares isso não precisava ser noticiado, além de novamente não se importar com as redes de ensino e outros serviços paralisados na Rocinha) (-2,0) Ainda assim, o clima é de apreensão. Foi possível ouvir, no bairro, o som de fogos na Rocinha nesta manhã. (novamente no erro de não ouvir moradores da Rocinha) (-3,0)

— O dia está normal, mas com muita tensão. Ontem ouvimos muitos tiros misturados com fogos — diz uma moradora, sem se identificar.

Outros residentes da região, entretanto, seguem as atividades como em um dia normal.

— O dia tá normal. O clima (de medo) é o normal do Rio — afirmou uma moradora da Estrada da Gávea, que também preferiu não se identificar. (o dia normal dos moradores da Gávea é a notícia? Saquei…) (-4,0)

Houve, também, quem preferiu se desligar dos acontecimentos.

— O dia tá “OK”. Não vi as notícias, então estou ótima. A ignorância traz a felicidade — afirmou uma mulher após deixar o filho no Colégio Teresiano, também na Gávea. Realmente merecia destaque para uma fala em que uma pessoa não se importa com o conflito armado que está tirando várias vidas? Este fenômeno merece ser estudado com atenção em uma única matéria. Isso deveria ser colocado como uma denúncia. Novamente é colocado como mais um morador que vive tranquilamente (-5,0)

Apesar de operação policial na Rocinha, turistas suspeitos (-0,5) sobem a Estrada da Gávea para fazer tour na favela – Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Em São Conrado, a estação de metrô, supermercado, o Shopping Fashion Mall e a escola Carolina Patrício funcionam normalmente. Moradores não deixam de sair de casa, mas admitem que a apreensão é constante. É o caso do economista Cláudio Castelo Branco, de 60 anos, que passeava pelo bairro com o cachorro.

— O clima é de apreensão. Ontem, quando eu saí para dar essa mesma volta, começou o tiroteio. Foi o caos. Torço para que a nossa polícia seja eficiente — diz Cláudio, morador de um edifício vizinho à Rocinha. (tanta linha escrita pra resumir a matéria em: moradores da Gávea continuam ok) (-6,0)

Há dois meses no Rio, em uma viagem de trabalho, Sandra Albuquerque, de 43 anos, vive uma ironia. Embora seja produtora de eventos, ela diz que evita ao máximo sair na cidade durante à noite:

— Eu tenho medo do Rio. Evito ao máximo sair à noite, especialmente porque fico próxima à Rocinha. Ontem foi a primeira vez que escutei o tiroteio apesar de não ser a minha primeira vez na cidade. (Infelizmente não é a primeira vez que moradores da Rocinha escutaram tiroteio, e pior, estavam dentro dele, por questionar a relevância deste relato para a cidade decidi tirar mais 2 pontos do texto)

Funcionária de uma banca de jornal em frente ao Fashion Mall, que pediu para não se identificar por morar na Rocinha, afirma que a circulação de moradores na banca diminuiu neste domingo e hoje:

— Você vê menos pessoas andando nas ruas. Hoje até mais porque está tranquilo, mas lá na favela o clima é estranho. Está um silêncio, poucas lojas abriram. A rua, lá, está vazia. (finalmente o relato de uma moradora da Rocinha, porém, quando finalmente aparece a fala de alguém da favela, este discurso aparece nas últimas linhas do texto além de mostrar um ponto de vista de como afetou o comércio próximo à rocinha. Aliás, a tentativa de não identificá-la foi ridícula, uma vez que disse onde ela trabalha, diferente do que aconteceu com todos os relatos dos moradores ao redor da favela. Erro grave) (-7,0)

Sua nota é -32,5

Análise geral do texto

O texto não mente, ao menos, não é possível perceber nas linhas que se seguiram. Porém o recorte foi feito por quem sabe o que está morar fora da favela ouvir tiroteio e ficar com medo. Isso é verdade e sem dúvidas moradores da Gávea e São Conrado tiveram este medo. Porém uma redação plural composta por jornalistas e diretores de redação que sabem o que é morar em uma favela ou possuem o mínimo de empatia por quem vive em área de conflito teria se preocupado em ouvir quem estava dentro da comunidade e o que acham sobre isso. O texto também apresenta uma grande contradição uma vez que a matéria se ancora no discurso do medo, bem típico deste tipo de jornalismo, mas quando mostra a fala dos moradores da Gávea e São Conrado, as falas mostram que sim, eles estão com medo, mas suas vidas estão…normais!

Outra falha neste tipo de jornalismo é nunca mencionar o nome dos bois. Tiveram facções lutando pelo comercio de drogas local. Que facções foram essas? Nem nesta matéria, e nem em qualquer outra vai ser possível descobrir.

Nossa recomendação aos responsáveis pela matéria é uma redação mais plural quando for compor este tipo de texto. Que essa pluraridade reflita em matérias onde a voz de quem está na zona de conflito sendo afetado diretamente por esta realidade difícil seja ouvida e sirva como material principal para se buscar uma vida dentro da cidade. Se de um lado a vida do lado de fora da favela continua fluindo tranquilamente, o que se pode dizer sobre a vida dos moradores da Rocinha? Felizmente existem meios de comunicação criados pelos próprios moradores que podem nos ajudar a entender tudo isso.

Sabemos que a recomendação do Jornal Globo é que seus jornalistas não entrem em favelas, o que por sí só é problemático e também precisa ser revisto.

Se os responsáveis pela matéria tiverem interesse em aprimorar sua metodologia e entender como se faz este trabalho em favela procurem o Coletivo Papo Reto, estamos montando uma oficina de jornalismo em favela e podemos dar consultoria para a o jornal.

 

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