Para sempre, Caio

Por Raphael Calazans


Em 2008 quando esta cidade anunciou o maior projeto de segurança público de todos os tempos, as UPP’S, todos nós, sabíamos que seu prazo de validade não tardaria a chegar. Passados quase 10 anos, ocorreu um número sem fim de eventos, discussões, publicações, estudos, análises, ações. Um sem número de projetos, grupos, movimentos se formaram e se deformaram. Nunca produzimos tanto. Nunca vivenciamos tanto um fenômeno que radicalmente mudou o eixo de discussão e os rumos de todos e tudo aquilo que o Rio de Janeiro produziu. Nunca, infelizmente, enterramos tantas pessoas. Enterramos muitos sonhos também. A promessa de coletivizar a força, multiplicar a resistência, ao fim e ao cabo, sucumbiram a coletivização da violência. Um caldo dramático, temperado pela morte que já superou as centenas, envolvendo policiais, moradores, ativistas e varejista de drogas, entornou. Corrompendo e tomando conta de todo terreno que acreditamos estar fértil para brotar um novo tempo. Borrando os horizontes da perspectiva da consolidação, ampliação e generalização radical dos direitos Humanos. Nós, pequenos e grandes, trabalhamos, apesar de muitas diferenças, para isso. Que pena….

Contudo, não é hora e não cabe aqui refletir sobre o complexo cotidiano que tem arrastado não só o complexo do alemão, como a cidade inteira. A banalização da vida democratizou-se de tal modo que, a cada 10 mensagens do Whatsapp, 11 são de alertas de tiroteios, roubos, arrastões. O medo venceu. Sua produção, tanto midiática, virtual quanto real e assassina, tomam conta de todos os debates, fóruns, encontros e discussões.

Mas é preciso falar de Caio Moraes. Relembrá-lo quanto um jovem, trabalhador, pai de dois filhos, negro. Trazer à tona sua profissão, a de mototaxista, proposta e projeto mais revolucionário que muitos partidos e post’s no facebook atual. É preciso trazer Caio para todos os nossos dias, pautas e encontros. Mesmo que cada vez mais escassos e divididos, fragmentados. A sua imagem, de um mototaxista-flamenguista apaixonado sorrindo, eternizado nos muros da favela e no rosto e sorriso-símbolo da coragem que tornou sua mãe, tia Denize, Mãe de todos nós. Sua imagem foi aquilo que de talvez melhor conseguimos produzir esse tempo todo: Transformar toda a dor, no sentido e na força de seguir em frente. Poderíamos optar por apresentar caio com timbre fúnebre, com um pano de fundo triste e pesado. No entanto, se há algo que ainda nos resta, é aquilo que nos faz ser com quem nos identifica: O de fazer do nosso ponto mais fraco e vulnerável, o braço mais forte.

O texto é uma homenagem e um brinde à vida de Caio e a nossa. Deve ser celebrada, com ainda mais vigor e alegria, por mais paradoxal que pareça. Cada vez mais, os caminhos tornam-se obscuros. As alternativas parecem desaparecer, como some toda a vida de uma favela que, parece ter sido aprisionada em seu próprio coração, que são as ruas e becos. Todos silenciados. Ouve-se, apenas, o som dos tiroteios. Diante disso, Caio é ainda mais importante, passados três anos da sua partida. Ele foi a perda, que deixou como foto o sorriso estampado. As saudades, de Caio, são como sementes que ainda insistimos em plantar naquele terreno das resistências. Para, quem sabe, relembrando o velho ditado, ainda que o caldo nos enterre, e coloque nossos sonhos à baixo da terra, como semente, ainda possamos brotar. E brotaremos, com outras pessoas e projetos, tocando em frente diante do quadro de horror.

Por fim, Caio Moraes nos lembra que importa muito mais saber a direção do que, muitas das vezes, o caminho. É esse o senso de um mototaxista, quando aparentemente está perdido. E a direção, dele e a nossa, é cada vez mais para dentro da favela. Até desaparecer e se tornar um só corpo no meio dela. Como o Caio, nosso querido amigo. Assim como ele, sigamos caminhando para frente…importa, muito, saber a nossa direção….importa saber a direção. Mesmo que seja de tempos aparentemente perdidos. O caminh….vamos construindo.

Para sempre, Caio à sua memória,

Querido amigo.

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