OPERAÇÃO CANCELAMENTO DA VOLTA ÀS AULAS

Por Raull Santiago

Esse foi o nome dado por moradores e moradoras a mais uma operação da chamada “Guerra às Drogas” realizada pela polícia militar, com apoio do BOPE – Batalhão de Operações Especiais, no Complexo do Alemão.
A operação polêmica gerou muita revolta pelo motivo de hoje ser o dia oficial de início do ano letivo, ou volta as aulas e justamente esse dia que a polícia escolheu para iniciar essa operação. Exatamente no horário em que milhares de crianças e jovens estavam saindo para a escola/colégio e moradores e moradoras descendo para trabalhar.
Por volta de 6h30 dá manhã, nós do Coletivo Papo Reto começamos a receber notificações em nossas redes sociais e nos grupos de Whatsapp, falando sobre a grande concentração de policiais militares numa área dá favela. O que logo se confirmou como operação.
 Próximo às 7h intensos tiroteios já aconteciam e a revolta foi geral, afinal, fazia tempos que não aconteciam operações policiais dessa forma intensa e elas voltam à ocorrer justamente junto ao momento em que as crianças e jovens voltam as aulas.
A diferença dos confrontos de hoje, para os do dia a dia, é que hoje houve reforço de muitos policiais, para além dos que já ficam na favela, além dá presença do BOPE e carros blindados, que faz a situação ficar muito mais intensa.
Pois bem, essa atitude dá polícia reforça o que muitas vezes é dito em desabafo por quem mora aqui e não aguenta mais essa situação: “A polícia nos usa como escudo, até as nossas crianças”.
Os grupos de policiais que chegavam na favela se espalharam por diferentes áreas e os confrontos foram se intensificando. Próximo das 8 e pouca dá manhã já haviam dois CAVEIRÕES na favela, veículos com alta blindagem, pesados e com orifícios por todos os lados, que permitem os policiais disparem por todos os lados da máquina de guerra, uma verdadeira ferramenta de matar pobres, se pensarmos resultados gravíssimos que são esses vários disparos do fuzil usado pela polícia.
É bizarro demais uma veículo desse ser usado em operações na favela.
Além do mais, por seu peso e tamanho, o CAVEIRÃO também é conhecido por moradoras devido as destruições que causa, como amassar carros, motos, comércios de rua, derrubar muros, etc.
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O BOPE também estava na favela e o tiroteio aconteceu de forma interminável por diferentes localidades, causando verdadeiro desespero em muitas pessoas.
Após passadas 6 horas de operação policial, a mesma rendeu diversos prejuízos e nenhum avanço, como sempre.
Percebam comigo o que foi esse dia de OPERAÇÃO – CANCELAMENTO DE VOLTA ÀS AULAS, realizada pela PMERJ:
1) No dia em que as crianças e jovens voltariam as aulas, a polícia inicia uma operação policial que coloca milhares de estudantes em risco e deixando-os sem conseguir chegar a escola.
2) Por conta dessa operação, alguns comércios não abriram no horário que costumam iniciar suas atividades, assim como o transporte alternativo (Kombis e Moto-táxi) não circularam em várias areas dá favela, gerando prejuízos financeiros diretos a esses trabalhadores e também impacto na vida de quem utiliza seus serviços.
3) As intermináveis horas da guerra deixaram centenas de casas fuziladas, caixas de água furadas, fiação de energia elétrica arrebentada, muitas moradias sem luz e impactos financeiros e sociais diversos na vida das pessoas.
4) Um policial e um jovem ficaram feridos à tiros. Várias pessoas se machucaram em casa, tentando se esconder dos tiroteios.
5) Muitos adultos e crianças desesperadas em meio a guerra nos mandaram áudios diversos. Pessoas chorando, pedindo ajuda e desesperadas com a intensidade da guerra hoje. PSICOLÓGICO DESTRUÍDO!
6) Nada foi apreendido, ninguém foi preso e mesmo se fossem pressos ou houvessem apreensões, os impactos seriam mínimos, pois não é dessa forma que haverá mudanças.
Para que avanços reais possa acontecer, convido vocês a refletirem e perceberem que precisamos assumir nossos preconceitos, nossa culpa na forma como esse sistema funciona e começar a construir outras formas de agir, por exemplo…
– Temos que acabar com essa lógica de GUERRA às DROGAS, pois isso não existe. É uma Guerra aos Pobres e isso precisa ser enxergado, pois a partir daí podemos construir outros caminhos de diálogo e não de disparos de fuzil.
– Sobre as drogas, devemos discutir as Políticas de Drogas atuais e construir uma nova linha de pensamento e ação que não seja pautada pela lógica dá guerra e sim a partir da saúde, do respeito as pessoas, de ampla discussão e entendimento sobre drogas.
Falar de regularização, possível legalização e todas as formas de tratar a droga a partir de meios que não sejam prisão ou morte, pois é isso que acontece com o recorte social preconceituoso e racista que diariamente alimenta a violência nas favelas. BASTA disso!
– Precisamos lutar para garantir Educação, Saúde, Saneamento de qualidade, valorizar o direito das pessoas… Isso é uma forma inteligente e com importantes impactos a médio/longo prazo, que funcionariam muito mais do que o rombo dos gastos com essa guerra violenta.
– Precisamos fazer o caminho inverso e perceber que as favelas não são o foco do problema, aqui onde acontece o varejo não é o núcleo geral de toda essa situação, porém como local de pessoas humildes, o preconceito e alienação fazem a sociedade acreditar que somos a raiz do caos, nos rotulando de perigosos e nos tornando “matáveis”, carimbando à todos e qualquer um como criminosos.
– É preciso entender o caminho das drogas, das armas e perceber o poderoso mercado que existe por trás dessa guerra, e não falo de tráfico é polícia, mas de quem lucra com qualquer um desses sangues que escorre e alimenta diariamente essa máquina hipócrita que parece a dança do bobo, onde durante anos aceitam repetir as mesmas ações “guerra às drogas” sabendo dos resultados péssimos, sem soluções e ainda replicar os depoimentos de trazem a medalha de idiota, falando as mesmas asneiras sem sentido de sempre, para justificar essas operações sem lógica.
E acreditem,
O nome oficial dessa operação para a polícia era: OPERAÇÃO PARA REMOVER BARREIRAS….
Estamos alimentando uma sociedade caótica e violento por não fazer discussões sobre preconceitos, racismo, política de drogas e perceber a nossa culpa em toda essa situação terrível.
Podemos mudar esse quadro, podemos salvar vidas, resolver os problemas dá super lotação nos presídios e diminuir a violência como um todo, basta frear-mos as formas erradas e aceleradas que seguem avançando a passos largos nesse poder pelo poder de nossos governantes.
Enquanto isso, no Complexo do Alemão ainda não houve o tão esperado dia de VOLTA AS AULAS.
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