Alô Dória! Lugar de arte é na rua!

Quando visito um grande centro urbano, gosto de olhar a arquitetura as pichações e grafitis. Todos dizem muito sobre a cidade. Gosto da maneira como pichadores e Grafiteiros adequam sua expressão a uma arquitetura e os 3 juntos compõe a paisagem urbana. Sempre desconfio de um centro urbano que não tem grafite ou pichação. As pessoas neste lugar não se expressam? Não tem ninguém ali dizendo que ama ou odeia alguém ou algo? Todo mundo ali está satisfeito com a vida e não precisa expressar sua preocupação com algo no mundo? Ninguém ali quer ter seu nome escrito em algum lugar de destaque?

Em um papo com um amigo artista, ele comentou: “arte não foi feita pra agradar ninguém! A menos que estejamos falando da arte renascentista

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Partindo de um desafio proposto pela Worth1000, artistas recriaram obras clássicas com um toque de arte urbana mostrando que ambos estilos estéticos podem habitar o mesmo espaço. A obra original se chama “O Beijo“(1859) do artista Veneziano Francesco Hayes.

Era um tempo em que o artista tinha que agradar alguém rico que o bancava. Na idade das luzes, também se destruía expressões que não babassem o ovo do alguém certo. Criamos a nossa versão disso: virou tradição Romero Brito presentear governantes e governantes apagar arte que expressa algo que realmente vale a pena refletir.

Era um tempo em que o artista tinha que agradar alguém rico que o bancava. Na idade das luzes, também se destruía expressões que não babassem o ovo do alguém certo. Criamos a nossa versão disso: virou tradição Romero Brito presentear governantes e governantes apagar arte que expressa algo que realmente vale a pena refletir.

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Quanto você pagaria por esta merda?

Lembro que na faculdade um professor de história da arte nos provocou com o básico: o que é arte? Papo vai, papo vem. Resposta decorada daqui, resposta politicamente correta dali. E ele finalmente da uma resposta que eu ainda hoje tenho dificuldade em aceitar, apesar de admitir que no mercado da arte é bem por aí mesmo. Segundo ele, arte é aquilo que as instituições definiram como tal. Dentre elas…o museu. Ou seja, segundo esse professor, pra ser considerado arte, um museu, universidade, especialista e tals precisa definir que a obra “candidata” possui os méritos para ter o “selo artístico”. Tosco não? Só que no mercado funciona assim mesmo. Mas artista bom é artista inquieto! E o mundo tá cheio deles que criaram várias formas de burlar o mercado. Foi nessa que Duchamp assinou um mictorio praticamente dizendo: isso é arte! Uns críticos odiaram, levou um tempo e outros amaram! E lá vai uma enorme quantia de dinheiro se você quiser comprar um mictorio com a assinatura do Duchamp.

Pierro Manzoni fez uma obra chamada “Merda de artista”. O cara enlatou a própria bosta e vendia a mesma pelo mesmo valor que a grama de ouro. Zombou bonito do mercado da arte! Mas…a galera comprou!!! Boa tentativa mano…se tivesse dado certo, tu teria vencido o mercado, mas deu errado e tu ganhou uma boa grana.

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E por esta?

Mas outros vêm vencendo essa batalha épica! Grafiteiros e pichadores! Eu sei alguns deles já se apresentaram em grandes museus e suas obras valem milhões. Mas todos os dias surgem novos tatuando a cidade! Novas formas de expressão! Novos gritos! E nenhum deles foi feito pra te agradar.

Alias! Nada é mais democrático do que expressão na parede!!! Nossa civilização começou quando aprendemos a escrever nas paredes! As igrejas católicas usavam as paredes para contar passagens da Bíblia porque ficava mais acessível para o conhecimento público. Por isso os vitrais, os tetos decorados e paredes cheias de adorno! Era a igreja se comunicando com o povão! O marketing inventa espaços autorizados para por suas propagandas que nada mais são do que sua versão de parede, só que politicamente correta, cara, nada democrática mas de alcance do povão!

Se você quer se comunicar com o povão é na rua que você tem que fazer isso! Nas paredes! No mesmo lugar que os políticos colocam cartazes quando querem seu voto!

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O Marketing, não picha paredes, mas inventa espaços em que apenas eles podem se expressar! Pichadores inventaram o seu lugar de expressão. Você não precisa gostar, eles não estão fazendo pra te vender nada.

Uma arte dentro do museu público é tão pública quanto uma pichação. Sendo a pichação mais acessível. E São Paulo, referência brasileira de museus sensacionais que já expôs obras importantes na rua, manchou de cinza seus principais artistas.

Ainda sobre meu professor e a definição sobre o que é arte, ele chegou a usar exemplo do grafiti que tinha entrada em museus portanto era arte sim, mas a pichação não. Tempo depois descubro que pichacões já tinha entrado sim! Tanto como convidada principal como na marra! Chupa essa!

Lugar de arte é na rua.

Obrigado Dória você deu mais muro cinza pra galera preencher com expressões que vão desagradar gente como você.

Sua gentileza vai ser retribuida com gentileza parafraseando um profeta que escrevia frases nos muros daqui do rio de Janeiro. Então…

…grafiteiros e pichadores, arregacem as mangas. Os muros das cidades não vão se expressar sozinhos. Temos muito trabalho pra fazer.

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Thainã de Medeiros

Museólogo, jornalista e membro do Coletivo Papo Reto

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