Uma fictícia paz

Por Raull Santiago


Segunda, 28 de Novembro;
6 ANOS DE OCUPAÇÃO do COMPLEXO DO ALEMÃO e 1 ANO da CHACINA de COSTA BARROS.
Hoje fazem seis anos que o Complexo do Alemão foi ocupado pela polícia, (e apenas a polícia), na chamada midiática e propagandista PACIFICAÇÃO.
Foram discursos diversos sobre “a retomada do território” e os novos tempos do Alemão, multiplicados mundialmente através de algumas emissoras, que inclusive ganharam muitos prêmios por conta da cobertura do circo de horrores que acontecia no Complexo do Alemão, ao final de 2010.

Chamaram de pacificação, nós vimos a contenção armada da camada popular, a partir do braço fardado e armado do estado.
A GUERRA AS DROGAS é um nome paliativo que é usado para mascarar a violenta GUERRA AOS POBRES, que tenta com muitas violações, encarceramentos e execuções, conter as lutas na favela contra o racismo, a desigualdade social, a busca por garantia dos direitos básicos contidos na constituição federal e pelo respeito ao nosso lugar e ao nosso povo.
Nesses últimos 6 anos, a ÚNICA PRESENÇA DE POLÍTICA PÚBLICA que esteve no Complexo do Alemão de FORMA EFETIVA, veio pela Secretaria de Segurança, ou seja, mandaram apenas polícia para a favela. O Estado do Rio de Janeiro tem como principal forma de “diálogo” com a favela, nos observar a partir da mira do fuzil de um policial e no momento que diz “querer inovar”, repete o mesmo modus operandi que nunca resultou em avanços.
No que diz respeito a Segurança Pública neste estado, somos vistos como o problema. Não estamos incluídos no campo de quem deveria ser protegido, somos vendidos como os que podem e devem ser presos e dados como executáveis.
policiais_ocupam_complexo_do_alemao
Foto retirada da internet. Autor não identificado.
EM COSTA BARROS, 5 jovens foram fuzilados dentro de um carro, na área da Lagartixa, que fica no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, na Zona Norte do Rio.  Os jovens estavam indo fazer um lanche em comemoração ao primeiro emprego que um deles havia conseguido,  quando foram fuzilados por dezenas de tiros disparados por policiais militares do 41º BPM (Irajá), em mais um dia de horror para as favelas, expondo o quanto é sanguinária e violenta a PMERJ.
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Foto de Facebook / Guadalupe News
Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20 anos, Wesley Castro Rodrigues, de 25 anos, Cleiton Corrêa de Souza, de 18 anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, de 16 anos e Roberto de Souza Penha, de 16 anos. Ele foram fuzilados com 111 disparos de policiais militares.
Quando uma pessoa morre de forma tão brutal, os impactos negativos dessa morte continuam e assim as atrocidades do estado seguem matando a favela de várias formas, o que infelizmente aconteceu com a senhora Jozelita de Souza, mãe do menino Roberto, que sem nunca ter tido graves problemas de saúde, faleceu.
ACABAR COM O TRÁFICO DE DROGAS É FÁCIL, mas quem no poder fora da favela, que lucram muitíssimo com isso, está interessado/a em acabar com uma empresa que gera tanto lucro para algumas pessoas, ou mudar esse histórico de repressão violenta que se fortalece e gera grana as custas da não discussão sobre POLITICA DE DROGAS reais e do sangue que escorre diariamente pelas ruas, becos e vielas das favelas?
A Secretaria de Segurança é rica e o mercado de guerra é quem dita as regras: Vender medo, para lucrar com a falsa sensação de segurança.
Assim, te fazem querer grades nas suas janelas, cercas elétricas em seus muros, vão alimentar violência, multiplicar através da mídia, dizer que irão libertar vocês com caveirões aéreos e terrestres, que prender jovens cada vez mais novos é o caminho, te farão menos humanos e humanas,  ao te convencerem de tudo isso e você se pegar aplaudindo com louvor, pessoas que dentro das favelas tem a cabeça estourada e os miolos espalhados por vários metros, enquanto o sangue quente marca o local da morte de seres humanos, que vocês aceitaram o discurso de que são matáveis, que são menos, que são inferiores e que podem ser descartados.
Mas percebam…
Em que momento nesse discurso caótico e problemático, ouviram dizer algo sobre investimentos em políticas públicas reais e impactantes, que garantam direitos, que valorizem o acesso à educação, saúde, moradia digna, alimentação completa, valorização da vida????
ACABAR com o tráfico é valorizar pessoas, é perceber moradoras e moradores de favela, como cidadãos plenos de direitos, investir no futuro e fazer uma discussão real em torno de desigualdade social e política de drogas.
É enfrentar o mercado das armas de forma real e não dessa forma escrota que é vendida, dizendo que favelas são o foco do problema, quando na verdade drogas e armas chegam nesses lugares, na maioria das vezes através da corrupção de quem atua no campo da “segurança pública” e muitos e muitas politico-partidárias. (Helicópteros do pó, caminhões militares carregados de drogas).
Apontar o dedo, as lentes e as armas para a favela e dizer que o problema da segurança está aqui, é um ato covarde, racista, preconceituoso, cruel e hipócrita.
O único problema aqui dentro, é quem está no poder político partidário, não garantir nossos direitos e ainda explorar nossa situação para nos tirar mais direitos, criando em nosso povo o estereótipo dos aprisionáveis, dos matáveis e nos colocando o alvo do significado de problema.
São 6 anos morrendo moradoras e moradores, jovens que se envolveram com o varejo das drogas e policiais.
VIDAS NA FAVELA IMPORTAM,
E estes 6 anos serviram para expor que esse “importam” é apenas no sentido #NósporNós, pois ninguém está se importando, a não ser quem é alvo em potencial, por ser daqui, ou por estar aqui.
PACIFICAÇÃO é na verdade PACIFICÇÃO, nunca foi ou pensou em nós dentro das favelas, como aqueles e aquelas que precisavam de atenção na melhoria da qualidade de vida.
Tentaram nos conter, militarizaram nossos lares, sem diálogos, exterminando a nossa organicidade local, que durante anos se desenvolveu de forma independente e alternativa, diante da ausência do fortalecimento do estado, para garantir acessos aos serviços básicos que nunca chegaram.
Discursaram sobre trazer cultura, cegados por sensação de superioridade, pelo racismo, pelos preconceitos, não percebendo como somos ricos em culturas diversas, da letra do Funk que narra a realidade, ao passinho que encanta e a construção de uma laje que se tornará moradia das próximas gerações, nossa cultura se enraiza na favela.
A polícia não pode mediar um conflito do qual ela faz e sempre fez parte. A ilusão da mudança de discurso não colou. Não acreditaríamos que a polícia que durante anos veio fazer mídia, prendendo pequenas quantidades de drogas, muitas vezes forjando, encarcerando e executando aos montes nossos povos, seriam agora bonzinhos.
E você policial, pecinha do tabuleiro, descartável, que nos fatos recentes, nem salário e nem a manutenção dos aparelhos bélicos que vocês mesmo usam é feita, o que matou 4 de vocês e mais uma vez, o ódio se virou para a favela, mesmo estando cada vez mais nítido que o helicóptero não foi abatido. O Estado não liga, vocês também são números.

Muita gente na favela não gosta de vocês por isso, porque eles do poder, os governantes, esculacham vocês e ao invés de questionar eles, vocês preferem descontar em nós das formas mais bizarras e covardes possíveis.

São centenas os nossos mortos só nesse período, que não serão esquecidos!
NOSSOS MORTOS TEM VOZ, ENQUANTO ESTIVERMOS VIVOS.
NO COMPLEXO DO ALEMÃO são 6 anos onde não há o que se comemorar, apenas pedir que as almas que foram ceifadas e tiros de fuzil, estejam em um lugar melhor do que esse caos, alimentado de mentiras, ódio, vingança e a pior cegueira que existe, a de quem vê e se faz de cego, em não frear esse circo dos horrores, lavado a sangue e silêncio.
Raull santiago,
Coletivo Papo Reto
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