Favelas: o coração e o beco

Por Raull Santiago 


Imaginem um coração!

É assim que eu vejo a favela onde vivo, o Complexo do Alemão, como um grande coração que bate através das artérias que levam a cada segundo o “sopro de vida” a ele, ou seja, os becos.

Sim, este é um texto sobre os BECOS.

São característicos em uma favela, é nele que a vida acontece, fazendo pulsar esse grande coração.

Ele é o caminho, o ponto de partida e chegada, o local de encontros e despedidas, o ponto de referência, o abrigo ou o caos, para quem é de fora, um labirinto.

São vivos, se desmembram em outros, que se tornam novos becos e assim se espalham como um galho de árvore onde a partir do primeiro, se ramifica, porém, como as águas de um rio que buscam o mar, eles sempre nos levam a uma rua principal dentro da favela.

Muitas vezes para chegar ao seu, você passa por vários outros, conversando com os vizinhos na janela, com as crianças brincando, ou acompanhado pelo latido dos cachorros por trás dos portões ou ainda, ao som do Funk, de Pagode, do Forró, ligados às vezes no último volume em uma casa ou outra, quando não, em várias.

Os becos cantam, sacou?

Como são importantes para o dia a dia estes becos, através deles acontecem às conexões de vida. Você conhece quem mora no mesmo beco que você, o chama pela janela, conversa de dentro de casa aos gritos, ou também aos gritos você ouve uma mãe chamar um filho para comer, botar um chinelo, descer da laje ou fazer um favor: “O fulano, cade você, vai botar um chinelo, garotoooooo! Vai à rua comprar um refrigerante!”.

Os becos gritam, tá ligado?

 Lembro que certa vez caminhando pela favela com um grupo de pessoas, eles me perguntaram: “Como você conhece todas essas rotas? Eu já me perdi no primeiro momento em que saímos da rua principal”.

Realmente… Eu nunca havia percebido isso, vai ver é a sobrevivência, quem é daqui já deve nascer sabendo isso, ou não, que ousadia dizer algo do tipo, mas não me lembro de quando aprendi a conhecer tantos e eu sei de quase todos do Complexo do Alemão e até de outras favelas.

Alguns deles fazem parte da minha vida, pelos laços de afetividade e também por alguma situação de terror que eu já possa ter vivido, pois este é o famoso conjunto de favelas da zona norte e por aqui, apesar de rico em cultura e histórias incríveis, às vezes tudo se transforma numa praça de guerra, por horas…

Mano, os becos travam!

É quando digo que essa artéria, esse caminho sangra; não são apenas os seres vivos que sangram por aqui, quando algo é primordial e este é abalado de alguma forma, também faz doer, também assusta…

É assim que acontece diante do “barulhento silêncio” no momento do disparo de um fuzil de assalto médio 762, ou da sequência de disparos de uma Glock rajada dentro de um beco, se sangra quando se ouve a sua parede, seu portão, a janela de sua casa, o cachorro, o vizinho, o parente sendo o receptor daquele projétil disparado. É um caos, só que às vezes tão comum, que se naturaliza a ponto de se ouvir dizer: “É normal… Daqui a pouco para… É assim mesmo”.

Tem beco que é sinistro!

Aaaaaaah se os becos falassem, quanto não saberiam hein? Estão aqui desde o início, aliais, eles são o inicio, o fim, o meio, são tudo.

Eles podem não se expressar com falas, mas de forma visual, concreta, ele te demonstra qual a sua situação: Os mais pobres, os mais violentos, os que têm mais subidas ou descidas, enfim… Comum mesmo entre os diferentes becos é que se ouve dia de jogos de futebol, por exemplo, a vibração constante do seu povo a gritar e zoar uns aos outros quando o seu time faz o gol: “Goooool, caralho, puta que pariu! Isso é Flamengo, porra! O Fulano, cadê, ninguém aparece agora…Bota a cara, vascaíno”.

Os becos fervem!

Chamo isso de ondas, de trocas, de encontro sinérgico onde os laços de confiança e afetividade se criam, para que você possa em breve bater na casa da frente pedindo o açúcar, ou mais comum que isso, deixar as crianças enquanto vai à rua comprar algo que esqueceu ou o que é de praxe, deixar a chave da casa para que o homem funcionário da grande loja do varejo (Casas Bahia) possa entregar o utensilio do lar.
Às vezes também a chave fica para momentos tensos, pois até o homem da lei aparece: “Vizinha, vô ali no mercado comprar um negócio que esqueci, fica com minha chave pra se eles passarem ai, não arrombar o meu portão…”.

Os becos se conectam!

Que incrível, não? É o cenário da vida real. Cada beco tem uma particularidade. Algumas das coisas que abordamos aqui em especial são arquivos de minha memória. Quantas vezes eles não são o nosso Playground, único espaço de lazer, já joguei muita bola, pique esconde, rodei peão e bola de gude, quando não em uma laje soltando pipa.

Os becos, para uma criança, são alegria!

Agora, há dois momentos engraçados e que até hoje acontecem em muitos becos, onde antes do fato se consumir, há uma movimentação tão intensa de “desaparecer e ficar em silêncio” que nem policial ou traficante seriam capaz de agir de forma tão brilhante e rápida, falo da excelência de alguns moradores ao se esconderem do “Homem da Prestação – empreendedor andarilho que roda pelas favelas vendendo utensílios diversos” e quando a pessoa não tem alguma grana para dar ao mesmo, que normalmente vende seus produtos fiado e vem recolhendo em parcelas…

Tão rápido quanto, é o boca a boca e agitação pré-silêncio máximo que avisa que os “Testemunhas de Jeová” estão passando de casa em casa, logo cedo, normalmente às 7h da manhã. Que situação engraçada, é um cenário de filme, desliga-se todos os aparelhos eletrônicos, ficam em silêncio em suas casas observando a movimentação dos irmãos, até que eles passem. “As palmas estão mais perto, fala alguém dentro da casa. (É batendo palmas que eles chamam as pessoas.) Já estão aqui no Vizinho…” Até que as palmas chegam a sua própria casa e ao cansarem, continuam seguindo seu caminho e a vida volta ao normal.

Isso quando a vizinha sem paciência nenhuma para atendê-los ás 7h grita de dentro de casa: “Não tem ninguém nessa porra, vai bater palma essa hora na casa do …”

Os becos são divertidos!

Becos, becos, becos…

Às vezes “na madruga” em alguns deles você tem o silêncio profundo cortado pelo grito de dor de alguém que os policiais estão enfiando a porrada por conta de um cigarro de maconha que viu o jovem fumando… Em alguns outros, os meninos da movimentação cobrando algum “vacilão” que fez algo que não devia, de acordo com as leis do morro.

Os becos às vezes assustam!

Mas também há os amores, as vibrações humanas, quem nunca morador de favelas, não se apaixonou pela vizinha de beco? Ficou ouvindo ele/ela cantar no chuveiro, levar broncas da mãe, chorar, se divertir…

Um beco tem esse nome justamente por ser o caminho onde dificilmente cabem duas pessoas em mão dupla. São apertadinhos por diversas casas que se sustentam umas nas outras, que não crescem apenas para os lados, mas para cima, fazendo assim se destacar a importância de uma laje na vida do morador de favela, que tendo a sua casa no térreo, constrói em cima um cômodo para o filho e este para o neto e assim sobem-se os “arranha céus” da favela.

Os becos aproximam!

Falar de becos é algo emocionante, talvez impossível em palavras descrever o brilhantismo de algo tão gigante para a realidade de uma favela. Lembro-me do desânimo do povo quando após o curto circuito no “gato” a luz acaba, ou a partir do tiro que acertou algum transformador. Lembro também do “empresta, empresta” de velas entre os vizinhos, aos dizeres de na próxima compra eu te devolvo, já que vela é algo essencial em uma casa da favela. E os gritos? Sim, gritos, mas de alegria, eufóricos quando a Luz volta, parece até final de Copa do mundo.

Os becos vibram!

 Uma rua principal dentro morro, é alimentada por milhares deles, por todo o percurso eles são a vida, o movimento, o caminho de um povo que sobrevive do improviso criativo para seguir adiante dentro de todas as dores e amores existente dentro desse todo que formam o coração chamado Favela.

Os BECOS vivem!

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