Distraídos, venceremos!

Por Raphael Calazans


De forma bastante trágica parece que, mais do que nunca, costumamos a conviver lado a lado, quando algumas vezes em nossa própria casa, com a desgraça. Esse próprio coletivo, infelizmente, ás vezes costuma narrar uma das tragédias mais antigas e violentas, que parece ter se tornada membro perpétuo, dessa calorosa comunidade do Alemão: Os tiroteios, gente morta, cemitérios e violações.

Além disso, assistimos, minuto a minuto, a Falência do Estado do Rio de Janeiro. Mais uma falência de um lado só: A dos direitos. Dessa forma, a crise é uma crise que sempre existiu tendo ela, agora, formalizado sua existência através da mídia e tomado uma direção radical: A da perversidade, para a saúde, educação, cultura… não livrando nem quem trabalha para máquina, os servidores. Nem que morre em função da máquina: Doentes, desempregados, miseráveis, alunos, famintos…eu… e você também. A clima de terror, antes reservado a segurança, agora também é observado nas outras ações, especialmente públicas, da vida. O Guanabara (mercado privado que, contraditoriamente, virou quase uma política social pública) há muito perdeu a condição de mercado popular. Seu aniversário, agora é para Vips.  Carrinhos de compra, apenas para brincar com as crianças. O pequeno comércio, resiste ainda num dos maiores perrengues.Está desaparecendo da mesa o Miojo e Ovo. Quais saídas?

A escola do bairro, da rua. Aquela mesmo, em que fomos pulando a roleta, matando aula para ir ao shopping e a praia, mandamos a cartinha de amor para a menina que mora na favela ao lado, zuamos no recreio, tiramos a camisa ao entrar no metrô, e fizemos memes do professor maluco e da professora idosa… escola que nos formamos.

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Alunos da #OcupaCompositor

A escola muito além da sala da aula. O trajeto de chegar até lá, começando muitas vezes particular quando se sai de casa, vai se tornando coletivo até chegar lá. Você sabe, no beco da frente chega mais dois, na rua do valão mais três, na padaria mais duas meninas, na praça já é um bloco de 10. E, no ponto, já tem 5 cabeças. No grupo do WhatsApp, vários áudios dizendo que ta se aproximando e o sinal vai bater. Será que a novinha vai ta lá? O que ela vai dizer depois da mensagem? Será que vou ganhar suspensão depois da conversa da diretora com a minha mãe? Vai dar cinema depois? Vai rolar um piche no refeitório? Vai ser suco de quê, no macarrão com salsicha da merenda? Mano, liga na FM o Dia no autofalante, tá chegando o 312, são 17 horas. Sexta feira, acabou a aula, é hora de ir ao salão, mas tarde é dia de Baile, no Parque União. A escola, cada vez mais, dentro da vida militarizada com encontros cada vez mais adiados, sejam pelo tiroteio ou simplesmente pelo medo, são as praças pedagógicas onde o aprendizado começa pelo trajeto.  Quando saio sozinho e depois viro bonde. A Escola Estadual perto da minha casa, onde fiz o ensino médio, foi onde também aprendi a construir memórias, desses amigos e parceiros e parceiros, de planos, grupos, festas, praias e shoppings. Que serão eternas. Assim como será o professor bom de onda, a tia da cozinha, o futebol na educação física, o horror à física, a primeira poesia, O x do problema de matemática, o primeiro texto do Fernando Pessoa.

A escola que a merenda alivia a fome. Troca a tensão do tiro, pela tensão em tentar colar na prova. Troca o campo ocupado por um contêiner da UPP, por uma quadra em que o mundo te oferece mais atividades além do futebol. A escola que te chama de aluno, não de bandido. A escola que você acredita, é a alternativa do caminho. Onde se cumpre aquele trecho foda da música do Racionais, que toca sempre nos Jukebox: Vi um pretinho, no caderno…tinha nem desenhos de fuzil. Na fé!

Essa são as escolas e as experiências que elas representam que estão em disputa, na luta. Elas que estão sendo ocupadas por esses sujeitos que, desde de cedo, aprende a ser coletivos…sejam para fazer o gato, ir à igreja, jogar videogame e ir para a escola. A escola que vê como aluno, não bandido. Que tem um uniforme, e até o mais fudido se sente mais igual. A escola pública, estadual, ensina a vida muito além da sala de aula. É lá, também, que ainda persistem uma das únicas chances de um lugar ao sol.

Sem o tradicional movimento estudantil que coloca o discurso, o grupo, a ordem como princípio. As ocupações são das meninas e meninos que compreender a função da escola, melhor que ninguém. Mais que isto, percebem que ela ainda é uma das poucas coisas que ainda restam na comunidade. E para ele. Em tempos de crise e da cidade mercadoria, onde somos selecionados, não pelos direitos humanos, mas pelo direito do consumidor, mais uma vez a favela acende uma luz para demonstrar que (ainda) há caminhos. Eles, os mais antigos: da luta popular, ocupar para garantir, invadir para proteger.

Dos garis, aos moradores de ocupações. Dos motoristas de ônibus, aos trabalhadores terceirizados. O Emicida tem razão: Eles conhecem Marx, nós a fome! E, sendo assim, a transformação e saída da crise virá daqui. Da mesma pretinha, mãe aos 15, que trabalha manhã e tarde, estuda à noite. Vale o sacrifício. O uniforme de aluna é um símbolo de um futuro melhor pro bebê que a espera, dormindo, em casa. O verbo da escola estadual da rua, zona norte, perto da favela aqui de casa é, para essa pretinha que hoje a noite vai ajudar a fazer o cachorro quente da ocupação, é o sonhar. Viva a luta, viva os estudantes. A educação está viva!

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