Muita gente puxou o gatilho junto!

Por Raull Santiago


Já se passou um ano desde o desespero, os gritos, os protestos, o choro e toda a dor diante de mais um assassinato brutal e covarde, cometido de forma institucional pelo braço armado do governo, a Polícia Militar.

Daquele dia, me lembro principalmente de dois sons que se repetem em meu pensamento: O grito de dona Cleonice em um dos grupos de whatsapp do Coletivo Papo Reto com outros moradores, informando de forma desesperada que uma criança havia sido assassinada numa parte da favela e o outro, o assustador e terrível grito da Dona Teresinha, mãe daquele que de forma covarde havia sido exterminado, o menino Eduardo de Jesus, enquanto buscava refúgio nos familiares próximos ao local do crime.

Existe uma frase que diz: ‘Só o que sentimos, explica o que fazemos’.
Diante de um assassinato tão terrível e a sequência de vezes que isso se repete nas favelas, considero que a Polícia Militar sente ódio de nosso povo do gueto.

Pior, ainda tentam nos empurrar nesses últimos anos, através de um projeto de segurança pública que não nos incluiu, a paciFicção das UPPs, onde governantes dizem que isso é “avanço”. Um projeto de contenção da camada pobre através do fuzil do estado.

Isso porque nos últimos 5 anos o Brasil vem se destacando em cenário mundial, após entrar na lista de países que receberiam mega eventos, como a copa do mundo e as olimpíadas. Mas esses poucas vezes envolvem a galera com menos recursos financeiros, não apenas pelos ingressos caros, mas principalmente pelo o que “ganhamos” com isso: as UPPs para contenção da camada pobre e continuidade do discurso de guerra as drogas, guerra esta que gera em massa o extermínio dos moradores de favela.

Do discurso de guerras as drogas, nos incluem apenas nos esteriótipos, nos preconceitos, na violência, no racismo, na linha de disparo do fuzil.

Nesse período dos mega eventos, em plena tarde de 2 de abril de 2015, vem a tona a notícia e a cena dolorosa daquele que teve a vida arrancada sem ao menos ter experimentado o mundo, o Eduardo tinha apenas 10 anos. Foi tombado com um tiro de fuzil na nuca, pelas costas e muita gente puxou o gatilho junto com aquele policial.

Não fosse o trabalho de comunicação independente em chamar atenção para esse caos, onde através de celulares e câmeras se preservou a cena do crime, o que mais a frente veio gerar impacto nacional e internacionalmente, Dudu teria sido pego pelos braços e pernas como bicho abatido, colocado em um lençol, desceria o morro carregado pelos seus assassinos, como um troféu sombrio e, seria levado para alguma viatura que antes de chegar ao hospital, passaria em uma área deserta onde ele seria despido de suas vestes, estas queimadas e ele chegaria nu ao hospital, pois o tirar das vestes, prática comum da polícia ainda hoje, torna mais difícil a investigação, já que some com a “tatuagem” de pólvora que um tiro deixa, ainda mais quando está tão perto do corpo a arma que dispara.

Os fatos no caso do Dudu eram explícitos e incontestáveis, coberto com diferentes lentes, a essa altura não apenas da mídia independente, mas de lentes diversas, mundias, o que nos fez pensar que este seria um dos nossos tombados que conseguiríamos ao menos alguma justiça, ainda mais em uma semana tão sinistra, onde um dia antes do assassinato do Dudu, a moradora Elizabete havia sido atingida por ‘bala perdida’ dentro de casa e também falecera.

Por conta da repercussão dos casos da sequência de moradores mortos no Complexo do Alemão, houve um fato inédito, a reconstituição de 3 mortes, a da senhora Elizabete, a do menino Eduardo e a do capitão da PM Uanderson, em comum todos eles tinham os mesmos possíveis assassinos, a polícia militar.

Porém o resultado faz o mundo desabar sobre nossas cabeças: os policiais foram inocentados dos assassinatos que cometeram. Com a justificativa da lógica de guerra: “estávamos sendo atacados, revidamos e o menino foi atingido!

Hoje Dona Terezinha segue na luta por justiça. Tem como importante aliada a instituição Anistia Internacional, com quem rodou alguns países em busca de apoio para pressionar o governo brasileiro em busca de justiça.
Mas por aqui, quando a justiça é para o pobre, todos se fazem de cegos, surdos e mudos!

Na chamada guerra as drogas, a favela fica com a guerra, a dor, a lágrima e a violência.
Quem ouve o disparo de fuzil e sente na pele o resultado disso somos nós que vivemos nesses espaços. Nós que sentimos os reais impactos da desigualdade social, dos preconceitos e do racismo.

O discurso de “trazer paz” é ilusório e nos mata todo dia, principalmente jovens negros, que tem o genocídio do seu povo como uma realidade.

É inaceitável a favela ser pensada pelo estado a partir da mira de um policial, essa polícia que todo dia aperta o gatilho em nossa direção, gerando ódio, revolta e incertezas.
Desde a chacina de Vigário e de tantas outras pelo país, até hoje em dia nas ditas pacificações, essa que exterminou o Eduardo, essa é a realidade.

A desmilitarização da PM e do Judiciário é necessária, lutar por isso é questão de sobrevivência, a nossa!

Nossos mortos não serão esquecidos!
Gritamos em memória deles, para evitar o tombamentos de muitos mais!

Sem Título-1

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