Memória ativa: O funk é o museu

Por Raphael Calazans


Se há um ponto de acordo, entre quem mora, quem pesquisa, quem luta, quem dorme, quem silencia, ou quem constrói e até aqueles que destroem, a vida em favela é esse: O vai e vem da vida, aqui, tem como marca a provisoriedade e a potencialidade. Dito por um professor: A dor e a alegria. Já por uma dupla antiga de Mc: “A tristeza e alegria aqui caminham lado a lado”.

O ritmo da vida, é provisório, intenso e feliz, como a Joaquim de Queiroz no Alemão, ou a via Ápia da Rocinha: Cheia de gente, cheia de vida, cheia de gritos, mas também, às vezes, vazia, triste, terrivelmente calma e silenciosa. Ora, como num espaço como esse, há possibilidade de construção e afirmação de memórias?

Durante muito tempo acreditei que a casa da memória, era como um antigo barraco, na ponta de um morro, calmo e frio: Memória era aquilo do passado que fica congelado. É sempre o que foi. Quem já fui. Aquilo que fomos, ou o que morremos. A memória tinha a cara de museu: espaço em que quadros, objetos, fotos, vídeos e músicas, despertam a emoção da lembrança.

Sendo assim, a memória precisa de um tempo estático: passado. Um lugar: Calmo. Um rosto: sério, ou no máximo, com um sorrio metade triste, metade saudoso. E um tempo verbal: o pretérito, melhor dizendo, a vida que, como o último trem, partiu e não voltará mais. A memória, assim entendida, é o que desperta a lembrança e a congela e a guarda nos museus: sejam eles os clássicos, com os dinossauros, sejam os modernos: com os vídeos, roupas, e barracos.

Nesse sentido, como falar em memória num lugar extremamente fugaz, transitório, que engole o passado, chuta pra longe o futuro e vive intensamente o presente? Uma lição que aprendi com o Alemão e o funk, é que na pergunta a gente diz a resposta: A memória é o presente da vida. Um presente embrulhado e bonito. Dado a uma vida corrida e intensa. Quem embrulha o presente? O Funk. O que tem dentro da caixa do presente? O coração.

Explico melhor. Veja: A memória, diferentemente daquela clássica, ela não desperta a lembrança do que passou. Ela reivindica a vida e dá sentimento e sentido, para aquilo que se perdeu. Por exemplo, é imperativo da narrativa funkeira: Saudades eternas dos amigos(momentos, casas, lugares, afetos) que já se foram! A convocação da memória diante da dor da saudade, no funk, possui uma força e apelo reivindicativo da vida. É como se isso trouxesse de volta quem já foi. Ressuscitasse quem fomos. Convocasse, para o presente, da mesma Joaquim de Queiroz cheia de gente: Aquele sentimento antigo, para tomar caldo de cana na feira. A memória, na favela funkeira, não clássica, mas sim, favela tem disso: Ela não deixa, a lembrança dentro dos museus. E sabe porque não deixa? Porque o funk é o museu. E, assim, ele guarda e confere vivacidade a saudade, chamando ela para dentro do rádio, do Facebook, do Youtube e do baile. Assim, transforma a ausência em presença. Que não se perde, quando perdemos ao deixar os museus. Ela fica, se eterniza, e revive tudo aquilo que um dia morreu. O funk, não é um quadro, uma foto, um dinossauro, ou tudo aquilo que um dia foi. Funk é uma música. E cantá-lo significa reviver e dar vida a quem já fomos, aqueles que foram, e dizer o que queremos ser. Ele não deixa seu amigo se perpetuar num álbum. Ele o coloca no grito e na força do tamborzão. Só assim, é possível perceber, as ruas e becos, nervosas, moradas da dor e alegria, como espaços de potencialidade que supera a provisoriedade.

Por isso, na favela a memória é ativa. É bandeira de reivindicação do direito à vida. Ela recusa depositar num espaço a saudade e as lembranças. Não é possível ter passado, para quem não consegue garantir o futuro. Por isso o lugar da memória na favela é o presente. Um presente dado à vida. Embrulhado e animado pelo funk. Que dentro do pacote tem um coração. E nesse presente, tem um cartão, que é um convite: Somos convidados, todos nós, ao despertar a memória, viver. E se há algo de passado e de lembrança, é esse: O presente da memória, dado à vida, é um convite e uma lembrança para aquilo que somos e que nunca poderemos deixar de ser: Favelad@s. Com todas as narrativas, discussões e lutas que disso decorre.

O funk, na verdade, colore e guarda a memória. Mas não de forma física e em caixas. É cantada, compartilhada, triste e alegre, movimentada e vazia, podendo ser elétrica como o Nego do Borel, ou mansa como O Mc Marcinho. A memória é um funk, que conta e reivindica as nossas vidas, culturas e raízes, que nunca morre.

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