Bem vindo ao funk proibido. Odiado, maldito e diabólico…

Por Raphael Calazans


LIBERDADE PARA TODOS NÓS, DJ!

….Assim, começava, ás vezes após a oração de um pastor, um dos maiores bailes da histórica do funk carioca: O baile da Chatuba da Penha. Maior pois dezenas de gerações foram marcadas culturalmente e socialmente pelo baile, mas também porque inaugurou, ou melhor, elevou o eco ao limite máximo uma das vertentes mais polêmicas e odiadas do funk: O proibidão.

Basta você olhar nos comentários nas redes sociais e em sites de notícias os adjetivos que recaem sobre o funk proibido: Meu amigo, você vai ter pena da mãe dos Mc’s. Como pode uma música narrar o crime? Fazer apologia de boca de fumo? Dizer aberta e francamente que a morte é merecida, exaltada e, até mesmo, prazerosa? Nojento e absurdo comemorar morte de policiais e bandido alemão? Ânsia de vômito em ver uma geração de jovens que se reúnem, aos milhares, num sábado a noite para falar de pau na buceta, que vai cortar a cabeça, e vai bafar cheirinho da loló até a madrugada?

Bem vindo ao funk proibido. Odiado, maldito e diabólico… tão quanto é a realidade de quem o canta. Antes de mais nada, importa dizer: Proibidão, deveria ser, o moleque de 16 anos ter contato e viver esse ambiente tão difícil e violento.

Proibido deveria ser, num dos maiores complexo de favelas do mundo, a base da polícia ser dentro de uma das duas únicas escolas de ensino médio e, disso resultar, na evasão de vários jovens.

Deveria ser proibido, uma criança ter sua cabeça estourada com um tiro de fuzil, e sua mãe, juntar com a mão a parte da sua cabeça no chão da sua sala. Cabeça essa que, pensava um futuro diferente, mas que, foi proibido de pensar.

Proibidão mesmo, irmão, é ter tiroteios em 80% dos dias do ano, numa favela que há 3 anos era tema de novela, parque de diversão de ONG’S, e símbolo da entrada do Estado.

Proibido, deveria ser, que um garoto que dança passinho, aos 17 anos tenha morrido no meio de uma praça, a única construída pelo PAC, e tenha sido, á ele, proibido, o direito ao socorro. O direito à vida.

Proibido deveria ser a existência de um coletivo de comunicação independente, que apenas uma pessoa de fato faz comunicação, mas que junta, de fotógrafo e museólogo, ter que se reunir para pensar formas de quem tem a realidade proibida, defender a sua vida. Eis o Coletivo Papo Reto: O famoso veiculo de comunicação comunitária proibidona.

Mas eis também o funk. O maior projeto social do mundo: 50 anos dando visibilidade a jovens e movimento de forma sustentável, solidária, resistente uma a economia das mais de 100 favelas dessa cidade. Eis o funk carioca, meu primeiro amor e minha vocação. Eis o funk do alemão, resistindo e disputando lugar, criando um direito de lazer, desde de que tudo por aqui, exceto a violação de direitos, se tornou proibido.

Eis o funk: Oferecendo um microfone, para uma menina ou menino, falar do que ele vê quando abre a sua janela, na Sabino, e ver o cortejo de sangue passar. Não pode ser proibida que se abra a janela de quem mora na favela, proibido deveria ser o que se vê quando ela é aberta.

O que fazer? Decretar o fim do funk? Nunca! Ele ainda é um dos únicos meios de comunicação que existe. E, na realidade proibida, cantar e falar é um ato heróico e de resistência.

Portanto, ainda vale repetir o grito histórico inaugural dos bailes: Liberdade para todos nós!

Liberdade não só da expressão, como aquela exigida pela arte produzida pela classe média cult, ao polemizar escrevendo nos muros que “não existe amor”. A liberdade aqui é a liberdade para viver. De não ser proibido ter seus direitos preservados, e de ser proibido, sexta a noite, com a geladeira vazia, e com o cartão do bolsa família zerado, o moleque pegar um lápis e papel amassado e escrever nele: Morrer como homem, nessa realidade, é o prêmio da guerra…enquanto a guerra não bate a sua porta, e encerre mais uma história de tragédia ensaiada e provável. Quem proibe que se cante o que se vive, proibe a vida.

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