5 anos de paciFICÇÃO

Organização de alguns trechos do livro que o integrante do Coletivo, Raull Santiago, está escrevendo.


Em Novembro de 2010 o mundo parou diante da cena de invasão daqueles que estão entre os complexos de favelas mais conhecidos da América latina e talvez até do mundo, os Complexos do Alemão e Penha.
A união de forças militares diversas, inclusive internacionais, são o movimento inicial do que os governantes da época chamavam de A RETOMADA DO TERRITÓRIO, ou PACIFICAÇÃO.

Após 5 anos dessa ocupação, confrontos violentos são diários nos Conjuntos de favelas.

O que houve?

11907373_902013926513525_4326449259338732837_nA invasão do Complexo do Alemão aconteceu de forma desastrosa e desesperada, com o discurso de retomada do território e apreensão de armas que estavam a margem do controle dos responsáveis pela segurança pública do estado.

Policiais de diversas forças e de todas as idades estavam se preparando para invadir a favela, mas quem vive nos becos e vielas dessas localidades, sabe muito bem que a polícia desse discurso heroico/teórico e a forma como eles atuam na prática, principalmente dentro das favelas, é bem diferente.

Em decorrência de uma série se situações caóticas que estavam acontecendo pelas ruas da cidade, como ônibus sendo incendiados, houve a decisão de ocupação militar com armas de guerra dentro do próprio estado e país, mas  aquela ação de 2010 não era a invasão para trazer paz, da retomada, longe disso, o que se ouvia sair da boca dos policiais quando a invasão começou era o discurso do ódio, vingança e corrupção.

“Vários policiais morreram aqui, vamos nos vingar e pegar esses filhos da puta”.

“Caralho, vamos dominar essa merda chamada Complexo do Alemão, agora quem manda somos nós”.

“O que vocês estão fazendo aqui? O batalhão de vocês nem está nessa missão! Vocês são lá da região dos lagos, dizia um policial civil ao PM. E o PM respondia – E vocês vão ficar ricos, fazer um super natal e nós olhando?”.

Essa era a situação real.

Enquanto os governantes pensavam na contenção da camada pobre e em vender a cidade através do marketing de uma falsa paz, o pensamento daqueles que a muitos anos viviam essa guerra era bem diferente.

Vingança, poder e principalmente encontrar muito ouro e dinheiro que existiam nos Complexo de Favelas, decorrente dos anos de lucro do tráfico de drogas, naquele que era o quartel general da facção ali atuante.

Nunca houve ou se foi mostrado um querer por dias melhores, apenas poder através da força, disfarçado no discurso de paz.

Com essa invasão a presença do tráfico ficou menos perceptível, mas uma coisa ainda era muito presente, as armas, agora, com os policiais, estes que só nos tratavam mal.

1610962_726672050792710_1643317672763789692_nArmas resumem a forma como chegam as políticas públicas nos Complexos do Alemão e Penha, o estado só dialoga com a favela nos observando a partir da mira de um fuzil da PM, desde novembro de 2010 até hoje, armas foram a única coisa que o estado colocou dentro do Complexo do Alemão, pensando no “desenvolvimento do lugar”.
A estratégia é simples, conter os pobres dentro da favela, fazer o marketing da segurança para fora e vender a favela pacificada e a cidade de todas as formas possíveis, não é atoa que além das forças armadas, outro batalhão que invadiu a favela foi o das empresas de TV à cabo e serviços desse tipo.

Grandes empresários patrocinavam essa estratégia de segurança, acreditavam que isso os protegeria e seus negócios, não sei de quem ou de quem, mas estavam pouco ligando para os moradores de favelas.

É óbvio que a ideia inicial era ocupar aquelas que já estavam mapeadas nesse processo de interesse, tais como Santa Marta, Cidade de Deus, Rocinha e Vidigal, lugares próximos ao que se considera área nobre e com algumas das vistas mais espetaculares no que diz respeito a orla carioca.
O Complexo do Alemão só entrou nesse meio por conta do caos e das guerras que estavam chamando muita atenção nesse momento de negociações.

E o que já era ruim poderia piorar, foi o que aconteceu quando alguns desses empresários começaram a perder grana e força. O projeto que já era falho e errado, fica frágil e não se sustenta, o estado sozinho não consegue mantes e aquilo que era para ser uma política com retorno financeiro, passa a ser apenas de gastos com as armas, salários e todo o suporte que o policial precisa para trabalhar. Com o tempo, falta grana.

11953003_747796568680258_7971299583037139260_nNo Complexo do Alemão policiais passam a viver em contêiners e ocupações que chamam de “bases estendidas”, ignorados, esquecidos, descontam no morador a sua revolta pela forma que os governantes os tratam, o que gera muita revolta na favela.
Corrupção acontece, armas surgem novamente e a PM passa a ser interpretada entre plantões tranquilos e plantões milicianos, este último, que vive querendo disputar o poder com o tráfico e com isso, as duas forças passam a se enfrentar de forma mais intensa.

O fracasso passa a chamar muita atenção e os governantes ordenam operações diárias de avanço policial em cima da resistência armada do tráfico, decorrente da pressão de pessoas que não moram nas favelas e da emissora do Tim Lopes.

11921645_744136455712936_4674112112648668349_nNessa disputa do discurso para dizer quem manda no território, a facção do tráfico e a facção formada pela UPP intensificam a guerra, mas o estado passa a usar de estratégias que colocam a população ainda mais em revolta, fazem operações policiais em horários escolares, 8h da manhã, 12h, 17h, o que faz aumentar o número de vítimas moradores nessa guerra.

A polícia sempre tratou todo morador de favela como criminoso, como inimigo, quando ocupou de forma permanente o território, passou a nos ameaçar, agredir e exterminar.
Como haverá avanços? A polícia não pode mediar esse conflito da qual ela faz parte!
Enquanto esse for o pensamento, haverá revolta e o tráfico continuará existindo.

Não se discute a descriminalização das drogas por exemplo e para além disso, a favela não fabrica armas, não tem plantação de drogas e muito menos refinaria de cocaína, basta enxergar e veremos que o problema não está e nem é a favela, isso é apenas consequência.

Nunca houve uma invasão de professores, ou de músicos, de artistas, de esportistas, apenas a polícia, o caveirão, a guerra e o abandono.

Se hoje um jovem de 14 anos está dando tiro de fuzil nessa guerra, em 2010 quando começou a ‪#‎paciFICÇÃO ele tinha apenas 9 ANOS, então não venham dizer que UPP funciona ou funcionou alguma vez, pois este dado das idades diz tudo!
Nenhum investimento em educação, saúde, saneamento, nas crianças e nos jovens, NADA!
De que adianta um teleférico parado ou a nave do conhecimento e cinema, se aqueles que poderiam usar estes espaços estão morrendo, estando envolvidos diretamente nessa guerra.

É a guerra do ódio onde os pobres se matam e muitos lucram com o nosso sangue e dor.

12065668_783217858471462_2355242851987798160_nAcreditem, Eduardo, Dona Dalva, Caio, Beth e todos aqueles e aquelas que morreram na mão da polícia militar, não foi por conta de legítima defesa, é o extermínio dos pobres acontecendo pelas mãos de outros pobres.

Não desejo a morte de ninguém, mesmo.

Mas não existe bala perdida,

Em nossa realidade, quem sobreviveu ao passado, está tentando sobreviver ao agora.

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