O poder de transformação através da palavra

Por Lana de Souza


Ela é autêntica, cheia de energia e transborda amor para todo mundo. Sonhadora, Thamyra Thâmara saiu de Brasília e chegou ao Rio com 2 malas e muita determinação. Nesta entrevista, Thamy fala sobre suas certezas, dúvidas e experimentações na vida.  Confere aí!!


Lana – O que definiu a sua escolha por morar no Rio de Janeiro? O que te inspira?

1278960_10202120888124860_843601132_oThamyra – Bom, creio que não tenha uma coisa em específico, foram muitas coisas. Eu gosto de pensar essa história da mudança no ponto de vista da PALAVRA. Sempre acreditei que de alguma forma a palavra escrita tinha poder de mudar um pouco da gente e a forma com que a gente vê o mundo. Eu ligava a TV via as histórias sobre as favelas do Rio e sentia que algo estava errado. Toda aquela narrativa. Talvez por eu também vir de uma favela, chamada de cidade satélite, mas que também sofre com a exclusão e criminalização do território por parte dessas “grandes mídias”. E aí, como toda adolescente ingênua e inconsequente eu tive o sonho de mudar tudo. Na verdade mudar minha própria vida a partir de uma mudança de endereço. Cheguei no Rio de Janeiro com toda a minha vida resumida em duas malas e me hospedei numa república em Santa Teresa durante três meses num quarto compartilhado que na época só tinha homem. Eu dormia com uma faca debaixo do travesseiro com medo das coisas. Aí comecei a adicionar a galera de favela no facebook e no twitter e acabei chegando na galera do Alemão. Identifiquei-me com as pessoas, com o lugar e já estou aqui há cinco anos. O que me inspira ? Acho que a utopia de acreditar que as coisas podem mudar.

L – Thamy, você é mulher, negra, moradora de favela, feminista, evangélica. Com todas essas características, como você definiria o seu papel enquanto comunicadora?

T – Nossa ninguém nunca me fez essa pergunta. Vocês são foda rs. Eu mesma já me fiz essa pergunta várias vezes e já tive as minhas crises. Mas acredito que com o tempo tudo vem se encaixando. Acredito que comunicar parte de uma visão de mundo. Palavras não são neutras, elas carregam o pensamento, as vivências e “verdades” de quem as proferiu. E é por isso que o que eu escrevo também parte muito da forma que eu vejo o mundo. Por exemplo: eu acredito que no mundo ideal não deveria ter distinção de pessoas independente da origem social, gênero e raça. E acredito que essa busca pela igualdade, direitos, liberdade na sua mais profunda significação e sentidos deva ser a nossa motivação em tudo que vá fazer. Nas artes, na comunicação, na academia e até na casualidade do cotidiano.

L – Conta um pouco sobre o projeto Anastácia Contemporânea e como ele se mostra libertador para muitas mulheres contarem suas próprias histórias.

313119_2603371484715_1130319899_nT – A história da minha avó paterna negra que saiu lá do interior de Minas Gerais para morar em Brasília na época da construção da capital, que enfrentou a pobreza na cidade grande com seus filhos e marido deve ser ouvida. A história das nossas mães, tias, primas, mulheres negras que construíram suas histórias à margem sem visibilidade e representação precisa ser ouvida. E acredito que nesse ponto bastante especifico da PALAVRA e na possibilidade de autopresentar-se através dela é libertador. Assim a palavra dita, ouvida e sentida será “traduzida” em letras e expressões e copiladas num livro coletivo de mulheres negras de todas as idades e lugares na construção coletiva de uma memória e de um possível futuro escrito por nós simplesmente.

Quem quiser saber mais entra lá na página Anastácia Contemporânea e também mande sua história pelo email:anastaciacontemporanea@gmail.com

L – Recentemente você fez um post falando sobre como é difícil ser negra. A Sthefanie Ribeiro publicou um texto falando sobre a personificação do racismo. Qual a sua opinião sobre como a sociedade responde a casos distintos de racismo?

T – O brasileiro “esconde” que é racista porque é feio assumir que é racista. É mais fácil acreditar no mito da democracia racial. Apresentar o racismo como casos isolados no país é uma forma de colocar nossa sujeira de baixo do travesseiro. É fingir que acontece apenas com algumas pessoas, que não é generalizado. E se não é generalizado não é um problema pessoal, é uma questão de caráter, de falta de educação de alguns. E essa falsa ideia de não ser um problema social acaba dificultando  a incidência de políticas públicas, de ações afirmativas e por aí vai. O racismo é fruto do nosso passado escravocrata. É parte de como nosso país se formou na sua origem, na base. E se essa base não for mudada na sociedade as coisas não vão mudar. Racistas sempre existirão. E de certa forma também a luta não dá conta de mudar a cabecinha de ninguém. A questão é querermos garantia de direitos e leis que punam atitudes e práticas racistas.

L – Quem é a Thamyra para além das lutas sociais?

T – Eu diria que ela tem uma mochila nas costas e um passaporte na mão esperando o próximo desafio.


Para ler o texto escrito por Sthefanie Ribeiro que foi citado nessa entrevista, clique aqui.

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