QUE NARRATIVA É A SUA?

Por Raull Santiago


Vivemos em uma sociedade onde o espetáculo da dor é algo vendável, por isso,  não é atoa que nos grandes veículos de comunicação, principalmente quando a pauta é a favela, 99% do que lemos ou vemos é violência.

Se quebrar-mos a tela da TV ou torcer-mos os jornais impressos, acreditem, escorrerá sangue, o nosso.

Mas o que está por trás disso?
É óbvio!
Preconceitos, visões estereotipadas, racismo, achismos e um acumulo do não querer, no que diz respeito a se aproximar para conhecer melhor, ver as pessoas e o local do qual se fala.

Exemplo simples disso, é que possivelmente se  consegue mobilizar holofotes diversos quando há um disparo de fuzil dentro da favela, mas pouquíssima mídia ou nenhuma, quando se realiza alguma atividade cultural, salvo as mídias independentes.

Operação da Polícia Civil no Complexo do Alemão

Operação da Civil no Complexo do Alemão

Acontece um pouco diferente quando o veículo de comunicação é “gringo”, de fora do país, pois a participação e realização de alguma matéria sempre se torna mais próxima e complexa.
Isso porque muitas vezes estes estão distantes dos vícios do achismo, criado por quem é do território nacional, o que acaba permitindo uma aproximação bem mais real, ou talvez, simplesmente estes se joguem mais, assim como os canais e formas de comunicação independente.

É claro que a violência existe e precisa ser exposta, ela é real, está presente, mas o lance é ir além dessa pauta, pois ela não é a única dentro de uma favela.
Quando exploramos apenas essa questão, isso se perpetua.
O próprio Papo Reto é um coletivo que atua com a comunicação, essas questões das violações diversas estão sempre presentes e se esforçar para mostrar o que é positivo é uma forma de resistência.
A diferença é que expomos as violações através das vivências, não achamos, vivemos.

Vale lembrar que esse texto é sobre comunicação e não sobre Insegurança público/privada nas favelas, mas na ótica de um favelado, vejo que nossa aparição na grande mídia é sempre nos casos policiais e o pior, acabando com nota da PM amenizando muitas situações gravíssimas. #JustiçaparaEduardo.

O jornalismo hard, intenso e diário é sim importante, mas em todo campo da comunicação informativa, olhar e pensar a partir da cidadania deve ser um dos carros chefes, um exercício importante,  pois isso tende a ocupar cada vez mais espaços no que se  diz respeito as formas de comunicar.

Já perceberam como os governantes só olham para a favela através da mira do fuzil da PM?
Percebam também que os “grandes” veículos de comunicação sempre vem “na bota” da polícia?
É preciso se reinventar para sobreviver na era da escolha, da comunicação “eu multimídia”, do poder do “eu vejo o que eu quero e onde quero”.

A frase que diz ” Quero ver me colocar para falar ao vivo, sem edição” significa muita coisa!

Acredito que canais de internet e de TV fechada irão crescer em pé de igualdade e isso já vem acontecendo, o poder de escolher o que quero assistir e quando.

Festa do dia das crianças organizada por moradores. Inferno Verde/Complexo do Alemão

Festa para as crianças organizada por moradores.

Enquanto isso, a TV aberta, essa onde você é apenas receptor, tende a perder espaço, se mantendo no limite através da jogadas com as redes sociais e também, se forem espertos, se aproximando desses novos comunicadores, com olhar humilde na busca de parceria, em construção de trabalho coletivo e sociedade nesse job.

Já o entretenimento até sobreviverá na TV aberta, mas as formas de narrar “o outro”, isso perde cada vez mais espaço, o outro já fala por si, só.
Ou se encontra um esforço para ouvir o outro ou se fala junto, novelas, por exemplo, irão se tornar programas sem graça, pela forma como se imitam, repetem e perdem força, basta vermos o ibope para comprovar, o futuro é “Narcos”.

Diante do caos humano das corrupções, da destruição do planeta, da banalização da vida, um olhar mais humanizado e cidadão é o caminho para sobreviver no avanço das formas de se comunicar.

Hoje se disputa atenção das pessoas em um apertar do botão F5, no rolar do mouse, ou no alerta programado que rouba sua atenção, informando que seu programa no canal de TV fechada vai começar.

Na era do EU multimídia, a comunicação é em blocos, o poder é o da escolha e ter total atenção de alguém, é quase impossível…

Vai dizer que tu leu esse texto inteiro de uma vez?
Ou que assiste televisão sem o celular ou laptop em mãos, dividindo atenção?

É mais provável que você esteja lendo meu texto pelo celular do que pelo computador, se em casa, sua TV estará ligada e você nem se lembrava em qual programa.
E agora você parou de prestar atenção no texto porque foi conferir isso tudo, mas tudo bem, já acabei mesmo.

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