Reflexões de uma gringa favelada

Por Charli Piu Piu

Sou antropóloga. Sai de casa, atravessei mar e terra e vim parar no Complexo do Alemão. Me joguei em outro mundo, e no inicio não foi nada fácil. Pouco a pouco me acostumei com minha nova comunidade e ela foi se acostumando comigo.

Conheci gente, arrumei quitinete, gatonet

Comprei frutas na feira da Grota, comi açaí do trailer perto de casa, senti o cheiro de churrasco na rua, o som de pagode, funk, o culto da igreja vibrando com fé…

E como eu amava andar pelos becos e vielas, galerias de arte a céu aberto, subir e descer morro e escadaria, pegar mototáxi e número de celular de mototaxista, pegar Kombi. Ou ainda melhor, ir a pé, lá em cima na Matinha, no Morro dos Mineiros beirando a Serra da Misericórdia; ir lá em baixo nas Casinhas, no Casarão, subir de novo a Fazendinha, as Palmeiras, a Alvorada, descer o beco e chegar na Grota e andar ate a Brasília.

Comecei a entender e usar gíria, adorei a criatividade do linguajar. Com a batida do funk rebolei com “azamigas” até o chão cantando as letras dos melhores funkeiros de CPX (Veja aqui).

Foto: Luiz Baltar
Foto: Luiz Baltar

Foi mais difícil me acostumar com “os cana” na esquina da rua, o fuzis apontando de cada viatura, a luz vermelha piscando, atrapalhando a vista. O espetáculo de barra pesada, tão perdido da ideologia uma vez falado de “policiamento de proximidade.” Nunca gostei de sentir minha liberdade restringida, me sentir vigiada pelos homens fardados, nem de receber cantadas deles mesmos. Mas sabia que não era eu quem eles iriam jogar contra a parede, dar uma dura, um tapa na cara. O alvo principal tem cor, sexo, idade e residência. (Leia mais sobre isso aqui).

As lágrimas de Dona Maria chorando a morte de seu filho, tornado a terra tão vermelha de tanto sangue, de tantos jovens, de tantos anos e de tanta guerra. A ocupação, o medo, o terror, as violações de direitos… nunca me acostumei e nunca podemos normalizar, sempre temos que resistir. Tanto quem vive dentro e quem vive fora. O problema é de T O D O S.

A árvore favela tem raízes profundas, e pode abalar mas ela não cai! E cada folha, cada flor que brota é nova energia. Conhecer a favela é escutar as histoórias dos sábios, os mais velhos, e ainda dos mais jovens, que todos tem a cabeça, corpo e alma cheios de experiências e sabedoria. Eles foram meus professores no dia a dia. A favela foi minha universidade da rua, do mundo e da vida. Estamos esperando ainda a universidade na favela, e ainda vamos correr atrás desse direito de educação formal, mas a favela sempre ensinou e sempre teve intelectuais, empreendedores, criatividade.

Favela eu te ❤

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1 comentário Adicione o seu

  1. Zilda Chaves disse:

    Inesquecível o Natal de 2014! Rceber sua visita aqui na minha casa em uma tarde especial . E eu cheia de vergonha porque te bombardiaram de perguntas sobre seu país e as pequenas que só queriam ficar perto de você, Muito bom, posso dizer “visita que é um presente”, e ainda presente de Natal!
    E agora o bom que existe o facebook, em outros tempos né, como seria?
    Quando voltar de uma passadinha aqui novamente, vamos beber chazinho de cidreira e comer aimpim…. E eu canto assim: ….É ela, é ela é ela a moça branca da favela, é vidrada na raça e devota de São Jorge, saravá Ogum……pra não quebrar o encato todo ano vai no Bomfim pra se cobrir….Bjks! ♡♡♡♡ Muita luz ☆☆Axé!

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